Perdemos Nossa Alma!

 
“Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lucas 12:20)

“Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? ou que dará o homem em recompensa da sua alma?” (Mateus 16:26)

Frequentemente fazemos menção desses textos no contexto da eternidade, o que é perfeitamente compreensível quando examinado pelo crivo da hermenêutica que nos remete à isso.

Creio também que da mesma forma, não somente a eternidade mas a idéia da existencialidade está implícita e intrínseca nas palavras de Jesus.

O indivíduo da parábola, no processo sucumbiu ao retrocesso e barganhou o essencial pelo superficial sendo vítima de si mesmo.

Perdeu a sua alma... E nós?

Perdemos nossa alma quando nos deixamos intoxicar pelos cuidados deste mundo que seqüestram a nossa sensibilidade de perceber e desfrutar as coisas simples da vida.

Perdemos nossa alma quando não sentimos mais prazer no sagrado porque estamos sobrecarregados com as projeções pragmáticas do nosso antropocentrismo.

Perdemos nossa alma quando trocamos a brincadeira despretensiosa com nossos filhos para investir nosso tempo em mesquinhos bichinhos de estimação da nossa egolatria.

Perdemos nossa alma quando não temos mais aquela boba vontade de visitar um amigo, parente, irmão para aquela boba conversa de sempre.

Perdemos nossa alma quando ela não mais é tocada pelo toque de uma música que é tocada pelo toque do dedo Divino no artista para tocar o nosso coração.

Perdemos nossa alma quando ela não chora mais com os que choram nem se alegra com os que se alegram porque nos seus porões só existe a cinza e o entulho de experiências esquizofrênicas.

Perdemos nossa alma quando as calamidades não nos assombram, a dor não nos dói e o olhar do desespero não nos desespera.

Perdemos nossa alma quando não sentimos prazer no prazer e as celebrações não fazem festa na pista de dança dos nossos corações.

Perdemos nossa alma quando a tirania do querer ter mancomunada com o querer aparecer narcotiza nossa consciência nos transformando em vermes viventes.

Perdemos nossa alma quando falsificamos o que é legítimo e legitimamos o que é falso autenticando o que é e que deixou de ser.

Perdemos nossa alma quando um abraço não nos abraça, um beijo não nos beija, um olhar não nos olha, um carinho não nos acaricia porque estamos gélidos na nossa existência.

Perdemos nossa alma quando nos perdemos dentro de nós mesmos porque perdemos aquilo que não poderia se perder: a virtude de saber perder.

Perdemos nossa alma! Perdemos nossa alma! Perdemos nossa alma!!!...

“...o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10)

Escrito em um desses dias de perder tempo com o que se pode perder: a famigerada ansiedade de não querer perder tempo.