Transgressão em Favor da Vida


E outra vez entrou na sinagoga, e estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada. E estavam observando-o, se curaria no sábado, para terem de que o acusar. E disse ao homem que tinha a mão mirrada: Levanta-te, e vem para o meio. E  perguntou-lhes: É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? Salvar a vida, ou matar? E eles calaram-se. E, olhando para eles em redor, com indignação, condoendo-se da dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu, e foi-lhe restituída a sua mão, sã, como a outra. E, tendo saído os fariseus, tomaram logo conselho com os herodianos contra ele, procurando ver como o matariam. Marcos cap. 3 vs. 1 ao 6.

Segundo meu conselheiro inseparável na hora das minhas conjecturas um tanto quanto subversivas para o contexto religioso formatado na tradição dos “Pais da Fé”, o Dr. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, transgressão ou contravenção significa o ato ou efeito de quebrar e infringir as disposições (intenções normativas) estabelecidas.

Pode parecer tendenciosa e irresponsável minha declaração, mas Jesus tinha uma característica marcante na sua personalidade: Ele era um contraventor e transgressor das “regrinhas desalmadas” da religião, provocando reações as mais diversas nos seus ouvintes, a fim de despertar a consciência deles para o que era bom e construtivo e que resultasse em última análise em crescimento para a alma humana.

A oposição e as acusações se intensificavam contra Ele, a medida que ignorava a postura legalista e intransigente dos “santos do ministério farisaico”, que queriam monopolizar e manipular as dinâmicas da Lei Mosaica, com o intuito de se projetarem e promoverem-se como porta vozes do “Divino” .

Havia naquela ambiência uma troca de sentimentos contrários: “Jesus indignado com a insensibilidade pedrada dos religiosos de perceberem que o ser humano é a causa e o objeto da criação amorosa e incondicional de Deus, e eles por sua vez indignados com a absoluta liberdade D’Ele em contrariar e transgredir as vacas sagradas da religião engessada e impositiva dos coronéis do templo”.

Trocando em miúdos os conteúdos, aqui está o que pude catalogar pra se pensar:

O estado emocional adoecido do ser humano sensibiliza a Jesus

Muito provavelmente aquele homem era assaltado frequentemente pelo complexo de inferioridade e inutilidade, já que vivia de favores de outros (mendicância).

Como diz o ditado: O trabalho dignifica o homem, e como digo eu: a inutilidade o mortifica.

E cabe aqui dizer que o alvo não era o milagre propriamente dito, mas o efeito que ele promoveria na relação daquele homem consigo mesmo e com a sociedade em que vivia.

O objetivo de Jesus não era fazer campanha publicitária do seu ministério, e sim devolver vida a vida!

Haja vista os milhões que se tem investido “ou seria desperdiçado?” em nossos dias em divulgação do “Próprio Reino”, em detrimento do ser humano.

A vida humana é argumento suficiente para romper qualquer regra religiosa

Essa era uma constante na vida e ministério de Jesus.

Ele valorizava o ser humano (Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes Mateus cap. 12 vs. 7).

Os religiosos valorizavam o estatuto e a tradição da denominação (E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado Mateus cap. 12 vs. 2).

Jesus preocupava-se com gente (E não convinha soltar desta prisão, no dia de sábado, esta filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás tinha presa? Lucas cap. 13 vs. 16).

Os religiosos preocupavam-se com coisas e prédios da instituição (E, saindo ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! Marcos cap. 13 vs. 1).

O fundamentalismo intransigente é um instrumento de crueldade em nome da religião

Homicida não é somente aquele que mata o corpo, mas sobretudo aquele que assassina sentimentos.

Os fariseus não estavam nem aí com a dor e necessidade daquele homem, eles queriam um pretexto (que o milagre acontecesse de fato) para terem do que acusar Jesus.

O duplo homicídio estava arquitetado vs. 6: Jesus realizaria a cura e seria sentenciado à morte por transgressão da lei, ainda que sem uma fundamentação legítima que até o próprio Moisés se revolveria no túmulo.

O homem seria curado, mas provavelmente morreria em vida com sentimento de culpa pelo acontecido, ou você acha improvável e devaneio da minha criatividade?

Jesus então sabiamente desarticula a arquitetura do mal: “E perguntou-lhes: É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? Salvar a vida, ou matar? E eles calaram-se” vs. 4 / “E retirou-se Jesus com os seus discípulos, para o mar...” vs. 7a.

A intolerância religiosa asfixia a prática daquilo que é nobre e prioritário

Jesus faz a pergunta que exige uma resposta: “É lícito...”, proporcionando para eles a opção pelos valores corretos e para que agasalhassem no coração aquilo que era bom, mas o interior deles habitado pela ira e inveja, não os deixava abrigar o bem.

Já dizia o pregador: “Pesada é a pedra, e a areia também; mas a ira do insensato é mais pesada do que elas ambas. Cruel é o furor e a impetuosa ira, mas quem parará perante a inveja? Provérbios cap. 27 vs. 3,4.

Uma pessoa que é possuída pela intolerância, deixa o controle de sua vida nas mãos da insensatez, e por essa razão fica sem poder de escolha, porque não consegue visualizar e andar na direção do caminho do que é essencialmente prioritário e nobre, fazendo com que seus esforços sejam direcionados a subjugar tudo o que se oponha as suas convicções adoecidas.

O preconceito cega e mutila a oportunidade da experiência com o Divino

A interrogação que navegava a mentalidade deles era: “Quem esse cara pensa que é? Não se veste como fariseu, não fala como fariseu, e vem tirar uma onda!”.

Os caras pregavam o Reino de Deus, mas não reconheceram O Deus do Reino, pois as lentes da aversão ao que se propõe como inédito os impedia de discernir com clareza.

Nós pré-concebemos por natureza na tentativa de nos blindar contra surpresas indesejáveis, fazendo assim com que rótulos imaginários sejam fixados, nos privando de grandes descobertas.

Vou ilustrar: Quando eu era criança, não gostava de jiló, pois o que estava estabelecido no meu inconsciente era produto de coisas que eu ouvia, e não a experiência real dos meus sentidos, por isso “ eu fugia do jiló como o diabo da cruz”.

Mas então veio o inevitável: me casei com alguém que gostava e comeu jiló a vida inteira, forçosamente me sugestionando a ter meu “primeiro beijo com o adorado jiló”.

Não deu outra, foi amor à primeira vista: “com a cozinheira e o amargo do jiló rsrsrs!”

Encerrando minhas alucinadas percepções, quero dizer que precisamos nos desarmar sem perder o senso da análise criteriosa e crítica “construtiva” sim senhor (pois a fé não é ignorante, alienada, ingênua e passa pelo exercício da ponderação lógica), sendo assim, faço plágio das palavras do mano Jó: “... Por isso falei do que não entendia; coisas que para mim eram maravilhosíssimas, e que eu não compreendia” Jó cap. 42 vs. 3b.

Parece loucura não é?! Mas eis aí a equação: Fé + Razão + Coração= a um produto em extinção: VALORIZAÇÃO DA VIDA!!!