Isso é coisa de quem não ora, ora bolas...


Como é intrigante observar a relação que pessoas de determinados currículos religiosos evangélicos desenvolvem com a oração.

É incrível, como algo que deveria ser leve e prazeroso e que foi estabelecido pelo Eterno como um meio de interação de amizade e amor entre o Criador e a criatura, independente do gueto religioso à que pertence o indivíduo, se tornou em metodologias maçantes, massificadas e pragmáticas de manipulação e “amansamento” do Divino.

Não é difícil você entrar em uma livraria de cunho religioso evangélica, e se deparar com títulos tais como (qualquer semelhança é mera coincidência): “Sete passos para uma oração respondida” / “A oração do justo e seus efeitos” / “Aprendendo a orar da forma correta” / “Como ter suas orações respondidas?” / “Movendo o invisível através da oração”, etc., temas esses com tamanha criatividade e imaginação de causar inveja em Dostoievski e reduzir sua obra Os Irmãos Karamazov a um simples comentário.

Aliás, recorrendo ainda a Dostoievski, certo dia uma pessoa me interrompeu em uma conversa e citou um trecho de sua obra dizendo o seguinte: “Se Deus sabe tudo e sabe do que eu preciso, pra que eu preciso rezar ?”.

Minha resposta de pronto foi: “Não rezamos para informar Deus sobre nossas necessidades, e sim para ter amizade e relacionamento em amor com Ele”.

A oração que deveria ser uma conversa despretensiosa, livre de argumentações teológicas, projeções egocêntricas, terrorismos psicológicos com o nosso “Pai Celestial”, transformou-se em técnicas e metodologias de voz de comando das realidades espirituais.

Campanhas marketeiras com a intenção de promover e produzir “adeptos de um clube religioso”, alastram-se como câncer numa cultura onde não se sabe discernir o certo do correto, pois, pode dar certo, mas minha pergunta é: “Está Correto?”, “É Honesto?”.

Essa histeria em querer traduzir a oração em uma prática tangível e perceptível pelas dogmatizações de uma espiritualidade produtiva e funcional, só revela que “ISSO É COISA DE QUEM NÃO ORA, ORA BOLAS...”.

Não quero menosprezar nem mesmo desmotivar a fala verbalizada com Deus, pois estaria contradizendo as Escrituras e a própria relação explícita nos Evangelhos do “Filho de Deus com o Pai”, nem tampouco me eximir não da responsabilidade, e sim do privilégio de tal prática, mas o fato é que a oração vai além dessas percepções paganizadas.

Não tenho a intenção de defender aqui também com unhas e dentes o que se chama de “oração contemplativa” ou “yoga evangélico”, mas para mim, orar é submeter todo meu ser a revelação da “Verdade” intrínseca em mim, de maneira que não venha gerar nem fobia, nem utopia, nem histeria, mas alegria de saber que sou fruto da Graça de Deus!

A maior leitura que se pode fazer de uma vida de oração, é uma existência que converge na prática da revelação do Evangelho que está escrito em si mesmo pelas “Penas do Eterno”, e isso torna-se tão evidente no dia a dia que me transformo então no que disse Paulo: “Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens: Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” 2ª Coríntios cap. 3 vs. 2,3.

A oração em algumas consciências perdeu a sua essência e transformou-se em:

Controle Remoto: Com ela as pessoas determinam, decretam, exigem, proíbem, manipulando assim o que transcende, pois o “faça-se a Sua vontade assim na terra como no céu”, não faz parte de suas frases prediletas.

Disque Denúncia: Uma lamúria sem fim, uma eterna “santa entrega” daqueles que nos feriram e vivem nos caluniando, um choramingar irritante das tribulações terrenas. 

Despacho Gospel: Com ela as pessoas amansam e aplacam o “chilique” de um Deus iracundo, inacessível, e fundamentalmente terrorista que gosta de azucrinar o mísero e deplorável verme humano.

Título de Capitalização: Através dela abrem-se as portas da prosperidade, pessoas são informadas do mercado financeiro, no que investir, no que trabalhar, o que não comprar, e se a crise que não é coisa de crente se instalar é só dizer: “Abre-te Sésamo” em nome de Jesus!!!

Produto de Polishop: Rendem fortunas aos marketeiros e mercenários inescrupulosos, que sem conteúdo e compromisso com o Reino, vendem a fórmula que abre os céus em milhares de exemplares, para alavancar seus “Business Gospel”. 
Sucesso de Rita Lee: Ôh! Ôh! Ôh! Lança! Lança Perfume!... Desbaratina... Me aqueça! Me vira de ponta cabeça... Me faz de gato e sapato, Me deixa de quatro no ato...

O barato é ficar doidão e curtir uma onda em oração.

É ter a sensorialidade anestesiada, para uma alucinada e narcotizada experiência que me projete para fora da realidade, e me liberte momentaneamente das crises existenciais.

Neurose Devocional: Patologia espiritual que necessita de tratamento com drágeas da Graça.

Com a intenção de se estabelecer um relacionamento profícuo com Deus, alguns apelam para as neuróticas dinâmicas oratórias de uma espiritualidade que não descansa nunca enquanto não cumpre a obrigação do dia.

Nada contra a devocionalidade e tudo a favor, desde que não seja resultado da tentativa de convencer Deus ou se auto convencer, tranqüilizando a consciência com a possibilidade de uma falsa e insustentável espiritualidade que se apóia em obras.

Se a oração tem causado inquietação, é porque “Isso é coisa de quem não ora, ora bolas...”