Aparências, nada mais...


Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos, e não meter o dedo no lugar dos cravos, e não meter a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei. E, oito dias depois, estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco. Depois, disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu. Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.  João cap. 20 vs. 25 ao 29

Não quero entrar no mérito da discussão sobre a descrença de Tomé e a reprovação feita por Jesus.

Não. Já são numerosos os comentários e exposições sobre o infeliz incrédulo, que é subsídio de sermão para os pregadores que massacram aqueles que não se enquadram na “ERA DA FÉ”.

Era essa, que é indústria de depressivos, neuróticos e doentes, porque não conseguem tatear nem de longe a “auréola da fé e santidade”, que alguns “marketeiam” nos outdoors da religiosidade e piedade placebas.  

Minha proposta é outra. É fazer uma re-leitura do texto e da “petulância” de Tomé em desacreditar, e que nos remeta para o nosso “eu interior”, nos fazendo encarar sem subterfúgios ou fugas infantilizadas, algumas realidades latentes dentro de nós.

Existe uma música muito antiga cantada pelo Márcio Greyck, e que fala sobre as aparências que se mascaram e que não querem aparecer na realidade do chão da vida.

Uma das frases que compõe o refrão é: “...Aparências, nada mais, sustentaram nossas vidas...”.

É exatamente a mesma frase, que tem sido o “porão da fuga” da espiritualidade de muita gente que não quer se enfrentar nem se mostrar com receio da reprovação alheia.

A grande “virtude” de Tomé em gritante contradição com a incredulidade rechaçada, foi mostrar quem realmente ele era, ainda que isso resultasse no desdém dos “irmãos na fé” e na repreensão do próprio Senhor Jesus Cristo.

Parece imprudente da minha parte , dizer que é uma virtude ser incrédulo, mais o que quero dizer é que Tomé teve a honestidade, a hombridade e a “masculinidade” de confessar seus sentimentos independente da campanha opositora que se fizesse a ele, e  justamente aí reside a virtude.

Você já deve estar me linchando sumariamente dizendo: “Então você aprova a descrença e incredulidade nas questões que se referem ao Reino de Deus e Sua Palavra?”.

E eu te respondo: “É óbvio que não!”. O que eu estou propondo, é que você não entre nessa de contracenar  e ser o protagonista da falsidade dos sentimentos enrustidos em nome da “FÉ”.

Seja você mesmo, gostem ou não! Não caia na sutil (ou seria descarada?) tentação de incorporar o “Pop-Star Evangélico” ou o “Highlander Gospel” e passar uma imagem bonitinha, tragável e assimilável pelas pessoas.

Para o meu e, talvez para o seu desconforto, muitos são os que estão fazendo coro com a música do Márcio - “... Aparências, nada mais, sustentaram nossas vidas...”, e porque querem mostrar o que não conseguem ser, para serem aceitos no meio em que estão não ficando por baixo, negociaram conteúdos que são inegociáveis para a saúde da alma humana.

Se é que posso ter a ousadia de te dar meu conselho, e como diria o sambista Almir Guineto numa de suas pérolas incrustadas na letra de uma poesia musical (...o meu conselho é pra te ver feliz...), o que te digo agora é bem simples assim:

Não tente provar nada a ninguém!!!

1º Não se iluda tentando ganhar a admiração de seus pares
Se para ser aceito no meio em que você está inserido, tem de negociar valores, vestir uma máscara e brincar de “faz de conta” ou de “me engana que eu gosto” para não decepcionar seus amigos que mais parecem inimigos, suponho que não vale a pena tanto sofrimento que é fruto de dissimulação, em nome de  uma “amizade plastificada”.

2° Não tente provar nada pra você mesmo 
Pois não conseguirá sustentar por muito tempo essa frágil pretensão. Se descubra, se assuma e saiba que sucesso e fracasso estão intrínsecos na ambigüidade da existência humana. Sucesso é só uma parada antes do fracasso, que se alternam nas estações da vida.

3º Não queira convencer Deus 
Ninguém o impressiona com meritologia que é sub-produto da meritolatria, somos fruto da sua insana Graça, e o PAI nos recebe do jeito que somos, com qualidades e deméritos. Como diria o contraditório Davi no seu estrip tease de alma: Assim como está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões. Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece daqueles que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó” Salmo cap. 103 vs. 12 ao 14.

Concluo com a agressiva e despudorada honestidade de Paulo: Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço... Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço...” Romanos cap. 7 vs. 15 e 19.