Respeitável público! O culto vai começar!



E, “TUDO” quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis” Colossenses cap. 3 vs. 23 e 24.

Respeitável público! O espetáculo vai começar! Como era especial essa frase e carregava consigo um ar de magia que se espalhava pela nossa alma adolescente como um bom perfume tem o poder de nos atrair e nos mergulhar em aromas e sentimentos os mais diversos e profundos que se possa conceber.

Ficávamos ansiosos por antecipação esperando pelo dia e momento do grande show onde nos encontraríamos com estranhos, amigos e alguns flertes de amor juvenil, tendo a possibilidade de participar de um momento onde ficaríamos desconectados da realidade da vida para mergulhar na imaginação dos artistas e juntamente desfrutarmos de um prazer que nos transcendia para o mundo onde “tudo é possível!”.

Quando o apresentador caminhava pelo palco de madeira com evoluções acrobáticas vestido de traje de gala e pronunciava “A FRASE”, uma atmosfera de reverência seguida por brados de êxtase, resultado da eloqüência e boa articulação do anfitrião que propunha descontração e animação por parte da platéia, contagiava a todos indistintamente.

Palhaços nos faziam contorcer de tanto rir, mágicos nos impactavam pela habilidade em lidar com o oculto, acrobatas estimulavam alguns ensaios de ousadia em nós, e como diria Cazuza: “Faz parte do meu show”.

Pena que tudo acabava tão rapidamente e nos fazia voltar a rotina da semana e dos meses em que não teríamos mais a satisfação daqueles encontros roubando o colorido da experiência substituindo-o pelo cinza da realidade.

Sei que essa nostalgia de adolescente que insiste em voltar a antigas emoções exije uma resposta para o: “E daí, o que isso tem a ver com o texto de introdução?!

Tudo a ver... A frase sofre apenas uma pequena alteração (Respeitável público! O culto vai começar!), mas que não muda essencialmente em nada a sensação que temos quando freqüentamos não um circo, mas um programa que se propõe a ser a última palavra no que se refere a cumprir o papel de religar o homem com Deus.

Nós temos uma visão reducionista do que significa cultuar a Deus, e elaboramos nossos espetáculos religiosos resumindo-os a programações que variam de um “circo” para o outro, estigmatizando e engessando o sagrado a duas horas algumas vezes por semana.

Ficamos ansiosos esperando o grande evento da santa ceia, cabisbaixos reverenciamos o apresentador que introduz o “espetáculo” com um texto Bíblico, rimos com depoimentos engraçados, ficamos maravilhados com alguns truques que levam o selo de sobrenaturalidade, chegamos ao êxtase quando acrobacias tidas por espirituais e frases de efeito chegam aos nossos ouvidos nos motivando a expressões de glória a Deus e aleluia em resposta a performance do anfitrião da reunião.

Realmente são momentos mágicos, tomamos uma overdose de transcendência que tem a capacidade de nos transportar para a “ilha da fantasia espiritual”, mas nos esquecemos que é no dia-a-dia onde se evidencia o “verdadeiro culto a Deus” em resposta a como eu administro as crises e celebro o fato de existir, de que maneira me autentico como agente produtor de vida na existência do próximo que agoniza ao lado e me proponho a auxiliá-lo a se tornar a coroa da criação.

O texto escrito aos irmãos em Colosso, diz que “TUDO” (abrangência em todos os níveis da vida), deve ser feito “COMO AO SENHOR” (encarado como uma decisão de prestar culto a Deus).

Creio que precisamos refazer “A FRASE”: Respeitável público! A vida vai começar! Sim, porque é nela que o culto a Deus ganha plenitude, é nela que ofertamos as primícias da nossa verdade interior, é nela que saímos da cômoda posição de espectadores de um programa religioso para sermos radicais na pregação do evangelho com o próprio ser, é nela que nos apresentamos sem a maquiagem do show para mostrar o rosto descoberto que encontra outras faces no espetáculo da realidade da vida.