Nossa frágil espiritualidade


“Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Porém ele lhe disse: Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal?...”  Jó cap. 2 vs. 9 e 10

Imagine se num curto período de tempo você perdesse o seu emprego ou todos os seus empreendimentos e empregados que foram resultado de anos de esforço e trabalho, e ficasse sem nenhuma fonte de renda dependendo agora de favores.

Imagine se seus filhos por quem você dedicou toda uma vida de carinho e amor sacrificial esperando um futuro promissor para cada um deles, fossem vítimas de uma grande tragédia da natureza e todos de uma só vez morressem.

Imagine se o seu marido ou esposa, essa pessoa por quem se apaixonou na juventude e esperava terminar seus dias numa boa velhice ao lado para curtirem juntos os netos, ficasse num estado lamentável de putrefação em vida por conta de uma doença nojenta que os impederia até mesmo de se beijar ou ir para a cama juntos.

Imagine se o seu marido ou esposa mesmo diante de tal situação catastrófica, esperando que ele ou ela reagisse ou se revoltasse contra a situação, se voltasse pra você e falasse: Como fala qualquer doida (doido), falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal?

Qual seria sua reação?

Somos rápidos em julgar e condenar a atitude dessa pobre mãe e esposa que repentinamente se viu no meio do caos, mas somos lentos em nos humanizar para chorar com os que choram e nos posicionar em suas angústias de maneira que a arrogância espiritual não nos faça subir no salto e falar de cima para baixo com os pobres desafortunados.

Queremos fazer orações poderosas, dar instruções de como proceder com as famosas receitas dos “7 passos para alguma coisa”, dizer que não devemos confessar a derrota pois o diabo legitima nossas palavras, e agindo assim acabamos por contribuir ainda mais com o desalento do sofrido ser humano que não tem cabeça nem alma num momento desses para assimilar tanta insensatez.

Não estou incentivando ninguém a descrença ou a que perca a fé, pois é justamente nesses momentos em que nós precisamos que os conteúdos daquilo que cremos e da nossa relação pessoal com o Criador nos dê alento e faça a diferença para pacificar nossa alma sofrida, mas precisamos nos despir por um momento da fantasia de super-heróis inabaláveis na fé, e assumirmos que somos candidatos em potencial para incorporar a atitude da mulher de Jó, que não está indiferente ou impossível da nossa realidade muitas vezes.

Pedro se achava nessa categoria dos “intocáveis” do Senhor: Senhor, estou pronto a ir contigo, até à prisão e à morte” Lucas cap. 22 vs. 33, até que foi confrontado pelo próprio Deus e pela realidade da vida: Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, antes que três vezes negues que me conheces” Lucas cap. 22 vs. 34.

Já vi muitos daqueles que arrogavam para si o status de super-heróis caírem com tanta facilidade quanto as palavras de ousadia que saiam da sua boca.

É nessas horas que percebemos a nossa fútil soberba de valentes do Senhor, e nos deparamos com nossa frágil espiritualidade que nos força a enxergarmos quem realmente somos.

Nos resta então admitir que, “SÓ A GRAÇA DE DEUS” para nos sustentar e não imputar ainda mais “juízos sem juízo” sobre nós, porque Ele entende nossas angústias.

Coitada da mulher de Jó! Poderia ser eu e poderia ser você!