P.U.T.A.S. – Quem pariu?!



“E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à mesa. E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o ungüento. Quando isto viu o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora” Lucas cap. 7 vs. 36 ao 39.

Por favor! Sem exegeses nem hermenêuticas para tentar refutar teologicamente o título com que Augusto Cury bem definiu Jesus: O Mestre do Amor.

É necessário exercitar a honestidade e desarmar-se de pré-conceitos para poder observar com as lentes da misericórdia e de identificação com a mesma natureza que habita indistintamente todos os seres humanos, o fino trato de Jesus que não rotula a que já está estigmatizada pelos olhares penetrantes e lascivos das taras incubadas da religião.

Só pôde e pode ser assim, porque Ele acolhe a já desmoralizada e não se satisfaz com o orgasmo enrustido da piedade malévola que insiste em tripudiar sobre as fragilidades daqueles que estão existencialmente destroçados pelo legalismo patrocinado com o aval da moralidade intocável. 

Era e é assim que O Mestre do Amor fazia e faz a inclusão graciosa no Reino de Deus das P.U.T.A.S. “Pessoas Utilizadas Tristemente Abandonadas do Sexo”, sem ser seletivo nem exigir perfeição meritória senão, a honestidade e integridade de quem agora perfuma o ambiente e se derrama aos Seus pés reconhecendo a gritante necessidade da alma que não pode mais viver separada dessa Paixão Divina que a seduz e constrange pela generosidade do Amor.

Se fora eu o interlocutor do fariseu lhe diria: Simão, P.U.T.A.S. – Quem pariu?!

Acaso não foi o desamor, o descaso, o descompromisso, a deselegância, a desonestidade, o desrespeito dos pares do seu gênero viril piedoso que contribuíram primariamente para que esta se fizesse assim?!

Fazendo a viajem de volta ao século XXI com seus dilemas e discrepâncias com as P.U.T.A.S., eu proporia agora aos que me lêem uma honesta constatação:

Usei o termo “Pessoas” e não “Profissionais” na sigla, porque grande parte delas são meninas e mulheres produto da violência e do abandono doméstico associados ao descaso do poder público, relegadas a sua própria sorte com filhos para criar e urgências a realizar, e que encontraram nessa opção por falta de oportunidade, consideração ou mesmo auto-percepção, a possibilidade de amenizar a dor de quem luta pelo direito de viver e sonhar.

A sociedade e as ambiências da piedade estão prontas a estigmatizar, segregar e desdenhar das P.U.T.A.S. conferindo-lhes a tarja de “impuras”, mas estranhamente em sua “pureza” não se dão ao trabalho de entendê-las e ajudá-las em uma transição que é desejo ardente na alma delas em abandonar essa vida que dizem que é fácil, mas que de facilidade só encontra o olhar e o dedo acusador de quem comodamente as conduziu ao banco dos réus para não assumir sua parcela de culpa.

Se acha que a vida delas é fácil então tente você! Se não tem peito para encarar, talvez fosse melhor repensar, acolher e amar como fez O Mestre do Amor!

E disse-lhe a ela: Os teus pecados te são perdoados... A tua fé te salvou: vai-te em paz.