Se meu Fiat falasse... Sofrimentos de um 147

LOKAVENTURAS PENTECA OS TAIS
 

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Porque, por ela, um Fiat 147 ano 1981 andou com óleo de fritura usado, e dá testemunho até hoje” Hebreus cap. 11 vs. 1 e 2 na versão São Franklin corrigido e atualizado pela Graça e insanidade pentecostal ano de 2011.

De crente e louco todo mundo tem um pouco. Conversão em alguns casos é totalmente surreal e inusitada, e com muita freqüência o novo adepto é um OVNI (Obreiro Viajante (na maionese) Normalmente Identificado) protagonista potencial das mais mirabolantes histórias.

Dito isto, prossigo. Foi num dia nublado e absolutamente normal que ele saiu do anonimato industrial automotivo para se tornar um fato histórico, pelos menos num círculo de relacionamentos com sentimentos e aspirações em comum: a sobrenaturalidade patrocinada pelo Evangelho, viabilizada pela comunidade cristã onde praticávamos nossa fé.

Apelidado pelos íntimos de “patinho feio”, alvo de comentaristas milagreiros gospel pelo farto repertório de aventuras, o meu Fiat 147 ano 81 teria poucas e boas para contar e me xingar devido as inúmeras situações desconcertantes em que o envolvi.

No painel da “nave”, a luz que indicava a temperatura parecia um estroboscópio, devido às inúmeras vezes, eu repito, inúmeras vezes que piscou em alerta, porque o motor estava fervendo por conta de alguma missão gospel extra-terráquia especial em que eu e os tripulantes & trapalhantes saíamos para nos aventurar.

O Senhor já havia até mesmo sensibilizado e convocado alguns intercessores para “se colocarem na brecha em oração”, entre eles minha sogra que quando se arriscava a embarcar pagava todos seus pecados expremendo de medo o P.Q.P. (aquele negócinho no teto para segurar com as mãos), e a irmã Iracema conhecida como “Docinho”, que todas as vezes que percebia uma atuação maligna do cão no radiador, começava a cantar “rude cruz” para Deus operar a libertação, digo, resfriamento do motor.

Dia de ir para o culto em Campo Limpo. O possante vazava cinco litros de óleo por semana e eu já era cliente assíduo das sobras de troca de óleo da cidade, pois estava desempregado e não tinha recursos suficientes para suprir esse “rombo hidráulico”. Quando resolvo puxar a vareta para verificar o nível vem à surpresa: “Nem uma gota sequer, e agora, quem poderá me salvar?!”.

Faço uma oração fast-food e instantaneamente me vem ao coração uma direção sobre-natural @: “Vai a casa de sua mãe (que era vizinha), e pede a ela o óleo usado para fritar os salgados (já vinha aditivado com  restos de risólis, coxinha, quibe e outras guloseimas).

– Mãnhê, cadê o óleo que a senhora usa pra fritar coxinha?!

– Pra quê?! Grita o baixinho bigodudo (meu pai) apelidado de “Baiano”.

– Pra colocar no motor do carro que está seco. Eu tenho que ir fazer o culto em Campo Limpo!

– Cê (eu já com vinte e nove anos) só pode tá brincando muleke!

– Não, num tô não! O carro não tem óleo e eu tenho de ir fazer o culto em Campola.

Nem um pouco constrangida, pois gostava de ver o circo pegar fogo, dona Ira (minha mãezinha Iraci tanto quanto piada e pirada como eu), com sorrisão de jacaré vem com uma pet de coca-cola cheia até a tampa de lubrificante miraculosamente transubstanciado de óleo de fritura para Max Lub Oil.

Sem pudor algum e totalmente sem noção, abri o capô e a tampa do motor introduzindo o “Óleo da Fé” sob os olhares de indignação do baixinho bigodudo.

Feliz da vida fui, fiz o culto e voltei. Primeiro e segundo dia. Primeira e segunda semana. Primeiro e segundo mês. No total seis meses com óleo de coxinha seguido vorazmente pelos cachorros por onde passava que eram atraídos pelo aroma convidativo. Depois mais três meses sem óleo algum, pois já estava até a tampa com o cheiro daquele óleo de rícino que invadia a cápsula interior da nave pentecostal. Por onde passava e estacionava despertava sentimentos diversos. Admiração, chacota e identificação.

Compactuaram comigo nesse delito o Zé Eduardo e a Meire que tinham uma barraca de lanche na Krupp (empresa onde trabalho até o momento) e que doavam galões de óleo das frituras que sobravam, vários irmãos que no ofício pastoral eu visitava junto com minha esposa e filhas, e que generosamente como retribuição amorosa cristã me reservavam depois da refeição o resto da fritura do ovo, do bife e outras cositas más, e todos aqueles que se arriscavam a fazer “viagens pentecostais” no “patinho de fogo”, em especial um pernambucano tímido, mas ácido e irônico em suas observações chamado por todos de Zézinho.

Tá curioso pra saber o que aconteceu depois dos nove meses né?! É óbvio que tudo tem seu tempo determinado como disse Salomão. Se o maná cessou, por que o patinho feio depois de um período de gestação não ficaria arriado de quatro pés (ou quatro rodas) com o motor travado?!


147 - Matando a cobra e mostrando o pau!