Levanta e anda! Esquartejando em oração um paralítico

LOKAVENTURAS PENTECA OS TAIS


E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, tem bom ânimo, perdoados te são os teus pecados... Ora, para que saibais que o Filho do homem tem, na terra, autoridade para perdoar pecados (disse então ao paralítico): Levanta-te; toma a tua cama, e vai para tua casa. E, levantando-se, foi para sua casa. E a multidão, vendo isto, maravilhou-se, e glorificou a Deus, que dera tal poder aos homens.” Mateuss cap. 9 vs. 2; 6 ao 8.

Edmundo e Nira passaram pelo processo de proselitismo gospel viabilizado pelo meu ímpeto recém nascido de evangelista do Armagedon.

Vítimas de uma necessidade que grande parte dos brasileiros enfrentam (fome e moradia) e alvos da caridade imanente nos discípulos do Nazareno, chegaram até nós numa manhã onde ela (Nira) com mais três crianças apertou o interfone da nossa casa e disse:

– Tem alguma coisa aí pra dá?

– Tem sim, aguarda só um momento.

Começava aí uma história repleta de cenas inusitadas e pra lá de surreal com a parceria da minha “personal trainer” em descarrego já na sua sétima década de existência, Dona Bila, mãe do meu pastor Jeconias.

Já devidamente batizados, arrolados na membresia da comunidade e praticantes dos ritos, algo extremamente desagradável acontece a Edmundo: Sem explicações médico/científicas ele fica paraplégico e perde totalmente os movimentos da cintura para baixo.

Como já havia fechado uma parceria de oração pelos necessitados da redondeza com Dona Bila, comuniquei a ela o acontecido que prontamente (a queima roupa) propôs uma campanha de oração de sete semanas para libertar aquele que agora estava inválido em cima de uma cama num barraco com as paredes revestidas de barro de três por quatro, onde viviam cinco pessoas mais cachorro, gato e papagaio. 

Dona Bila com seus setenta e poucos anos tinha muita dificuldade de caminhar, e o local era de difícil acesso o que me obrigava a apoiá-la para subir e descer uma ladeira extremamente íngreme e sem pavimentação de aproximadamente 100 metros, o que nos proporcionou vários tombos, escorregões e os sapatos “lambrecados” de barro e dejetos do esgoto a céu aberto que fazia parte do trajeto.

Todas às vezes era o mesmo ritual, depois de vencermos os obstáculos naturais entrávamos no embate espiritual.

Dona Bila desenvolveu uma metodologia totalmente personalizada, e levávamos na bagagem um litro de óleo de cozinha para ungir o enfermo.

 – Irmão Kilin (dizia ela me chamando pelo apelido conhecido desde criança), pega o óleo e unge primeiro os pés que nós iremos orar por eles.

Depois de fazer a oração tradicional suplicando a Deus a cura e libertação, ela impunha juntamente comigo as mãos sobre os pés do irmão e convocava a todos que estavam presente (geralmente a esposa do enfermo e as três filhas) para juntos repetirmos uma espécie de “mantra gospel”:

 – Queima, Queima, Queima, Queiiiiiima Gézuisss! O Sangue de Gézuisss tem poder! Pés, eu ordeno a vocês, voltem a se movimentar em Nome de Gézuisss! Eu repreendo o demônio que está alojado nos pés desse homem e ordeno que saia em Noooooome de Gézuisss!

Ah! Como aquilo era surreal e inusitado! Parecia que os pés além de unhas, pêlos, calos e chulé, possuíam também um par de ouvidos, pois todas às vezes acontecia algum tipo de reação como que os pés ouvindo e obedecendo ao comando dado.

 – Irmão Kilin, mais óleo, mais óleo, mais óleo, bastante! Todo mundo junto de novo: “Queima, Queima, Queima, Queiiiiiima Gézuisss! O Sangue de Gézuisss tem poder! Pés, eu ordeno a vocês, voltem a se movimentar em Nome de Gézuisss! Eu repreendo o demônio que está alojado nos pés desse homem e ordeno que saia em Noooooome de Gézuisss!”.

E assim nós “esquartejávamos” em oração o Edmundo, untando-o todas às vezes com quase um litro de óleo, pois o ritual “a la Jack o estripador” era processado por partes: Primeiro os pés, seguido sucessivamente dos tornozelos, panturrilha, joelhos, coxas, quadris e, para arrematar a fritura espiritual com óleo Liza em Nome de Gézuisss do “demo da paralisia” que havia atacado o irmão, ela e nós orávamos pelos neurônios e sistema nervoso do untado.

Sete semanas não foram suficientes, estendemos para mais sete que também não resolveram o caso, e como ela era “osso duro de roer” prolongou por mais sete.

No último dia da campanha pedindo para que eu ajudasse o paralítico, ela disse a ele:

 – Irmão Edmundo, agora o senhor levanta e anda em nome de Gézuisss!

Para êxtase geral de todos no final dessa “cômicodisséia”, o resultado foi a total cura e libertação do homem que agora testemunhava aos prantos na Igreja e onde era convidado, o milagre acontecido com a instrumentalidade dos esquartejadores de Jesus”.


P.S. – O texto foi construído com nomes fictícios exceto meu apelido, porém os fatos e personagens são reais.