Crise de abstinência eclesiástica



“A gente deixa a coisa, mas a coisa insiste em não deixar a gente”

Essa foi a frase que surgiu depois de uma reunião simples e leve, onde meditamos no Evangelho, cantamos algumas músicas e participamos de uma mesa com guloseimas e um gostoso bate-papo entre amigos, tudo feito em Nome de Jesus.

Dura coisa é você estar habituado (viciado) em determinados processos e situações, e então depois de fazer a opção por um rompimento radical com aquilo que o tornava dependente e consequentemente adoecido, ter de lidar com a tal da “crise de abstinência”.

Essa é uma fase crucial e decisiva, na vida daqueles que não aceitam mais o fato de serem dominados tornando-se reféns de condicionamentos físicos e psíquicos destrutivos, que contribuem para degeneração da alma humana tornando a pessoa por ela assediada em zumbi-psicológico.

Junto com a crise de abstinência que é o “conjunto de modificações orgânicas que se dá em razão da suspensão brusca do consumo ou da prática de algo gerador de dependência física e psíquica”, vem a reboque os incômodos sintomas da indisposição, insônia, ansiedade, irritabilidade, náusea, agitação, taquicardia e hipertensão, com grande possibilidade de recaída se não houver por parte da pessoa uma forte determinação em superar a sedução de se render a comodidade e passividade de não lutar, e o apoio afetivo por aqueles que já enfrentaram ou estão no mesmo círculo de relacionamento da pessoa.

Pode parecer sarcástico o paralelo que proponho agora, mas é uma dura constatação o que faço. Grande parte daqueles que fizeram igualmente uma opção radical em romper com situações e processos ligados a religião que os tornavam dependentes e adoecidos, enfrentam a mesma crise com possibilidade de recaídas.

A indisposição se instala por não conseguir equacionar o simples do sofisticado, noites mal dormidas que são resultado de doces lembranças do cativeiro, ansiedade gerada pela análise superficial se no balanço geral valeu ou não a pena o rompimento, irritabilidade por ouvir depoimentos de prosperidade do antigo ambiente sem a coragem pela consciência adquirida de querer voltar, náuseas por ter de conviver com sentimentos contraditórios do que um dia foi bom, mas que hoje é mal, agitação com forte inclinação ao ativismo como forma de compensação dos “anos dourados roubados”, taquicardia todas as vezes que lhe é citado o nome de personagens responsáveis por agravos sofridos e hipertensão, quando os números e resultados atuais não correspondem a expectativa ou não se assemelham aos contabilizados no passado.

Para dependentes químicos (viciados) em igreja (status quo, modus operandis do sistema e estrutura eclesiástica), vale lembrar as palavras de Jesus: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Conhecer a verdade em outro aspecto, é refletir sobre o fato de quem eu sou na verdade pra mim mesmo, e feito isso, só me resta a opção de caminhar na Verdade segundo o Evangelho que me conduz em pacificação com Deus, com o outro e comigo mesmo, “...esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prosseguindo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”.

Minhas palavras carregam consigo um conteúdo subversivo intencional, com a motivação de ser o gatilho de uma revolução interior que lhe traga libertação, não permitindo que seja vítima do seqüestro da sua personalidade e do seu compromisso com a Verdade por mera satisfação passiva religiosa.