Missões: Como tem sido encarado o IDE?!



“Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; Ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco, todos os dias, até à consumação dos séculos. Amen”. Mateus cap. 28 vs. 19 e 20

Missões ou turismo?! Pregação ou proselitismo?! Evangelismo ou expansão denominacional?!

Não há como refutar a clareza e contundência do imperativo desse texto, que é uma convocação pessoal intrínseca ao chamado do Evangelho a tantos quantos creram no Cristo Salvador. Fato e fator inegociável!

O desconforto porém que encontro no trato deste tema, está na interpretação que se faz e nas dinâmicas desenvolvidas, que em grande parte são fruto de equívocos em discernir a proposta de Jesus.

O sub-título do texto que é intencionalmente provocativo, nos desafia a repensarmos a maneira como tem sido realizada essa vocação delegada a Igreja ao longo dos dois milênios de cristianismo.

De um modo geral, a religião cristã desenvolve nos seus adeptos um forte apelo militante que os motiva a trabalharem em cima da expectativa de gerar adesões agregando novos discípulos através da pregação persuasiva de sua filosofia em traduzir as exigências da divindade no que concerne a eternidade.

Fico horrorizado quando ouço ou leio algumas pessoas tentando explicar que Jesus Cristo foi o fundador do cristianismo e que, se faz necessário propagar essa mensagem para que as pessoas se convertam (entenda-se mudança de religião)! Ledo engano!

A pregação do Evangelho na perspectiva de Cristo, não visava transferir as pessoas de um sistema secular para outro religioso com suas regras, estatutos e cartilhas de procedimento.

No seu ministério terreno, Jesus lidou de tal maneira com seus discípulos a fim de os tornarem pessoas que foram imersas na Graça de Deus para que, evidenciassem essa nova realidade nos processos naturais da vida e na interação cotidiana com o próximo, e não em programas religiosos pré-agendados ou pré-fixados.

Sua proposta não era fundar um clube para auto-promoção, auto-satisfação ou auto-recreação espiritual dos seus associados. Seu desejo era que fossem simplesmente seres humanos transformados pelos conteúdos do Evangelho, para que agora se envolvessem naturalmente no contexto onde estavam inseridos, oferecendo uma perspectiva de Reino de Deus para as pessoas com suas demandas e necessidades. Isso é missão! Isso é pregação das atitudes! Isso é evangelismo! As boas novas do reinado do Eterno no coração e na vida dos homens aqui e agora e no porvir!

Agora, a pergunta que não cala: Como tem sido encarado o IDE?!

Missões ou turismo?!

Uma grande parcela faz de missões nada mais do que turismo pessoal! São pessoas que financiadas ou não por uma instituição religiosa, bem ou mal intencionadas, vão para regiões onde sua presença é totalmente dispensável como alguém que possa construir ou oferecer respostas práticas as necessidades reais das pessoas. Deslocam-se para algum país ou lugarejo, com o intuito de visitar os irmãos da mesma crença que lá residem, chamando isto de missão. Na verdade é aquele “papo de comadre ou de compadre” onde as pessoas de mesma ideologia e filosofia religiosa se auto-satisfazem “massageando-se” mutuamente na fé. Quando não, usam do expediente como pretexto para projetos pessoais.

É muito comum nessa mentalidade, pregadores deslocarem-se para outras regiões ou países distantes, para promoverem cruzadas ou campanhas de preleção da mensagem cristã entre os da mesma crença, chamando a isso de missões.

Pregação ou proselitismo?!

Um outro equívoco cometido pela militância cristã, é fazer da pregação do Evangelho proselitismo. Existe no inconsciente coletivo da cristandade, uma concepção de que fora das suas fronteiras não existe salvação, daí o empenho em promover programas e empregar esforços, para que todo aquele que professe uma fé que não seja pautada na sua cartilha de dogmas, venha fazer a opção pela conversão conforme sua cosmovisão de espiritualidade em nome de Deus.

Os esforços são concentrados na perspectiva de adesões, o que é considerado como conversão. A pregação “proselitista” visa persuadir o adepto de outra religião para que ele renuncie suas crenças fazendo-se agora partidário do novo conceito assimilado pela pregação cristã, que enfatiza a necessidade de transição de um “modus operandis” religioso para outro. Com muita freqüência, o conteúdo da mensagem tem a finalidade de incutir na mente do público alvo o terrorismo escatológico, como meio de constrangir o ouvinte a uma decisão pela nova fé.

Evangelismo ou expansão denominacional?!

O que dizer então dessa relação?! Visão que deixa absolutamente evidenciado e subentendido que evangelizar é alargar o território institucional. É aquela mentalidade muito difundida nas conferências sobre missiologia com a proposta de “PLANTAR ou ABRIR IGREJAS”. 

Plantar ou abrir igrejas é tido por uma grande maioria de obreiros cristãos como uma forma de engajar-se no trabalho espiritual de evangelização para Deus. Entendo que igreja não se planta, não se abre, não se monta, ela deve ser uma comunidade que surge naturalmente de relacionamentos que foram gerados pelo Evangelho.

Essa visão de evangelismo pouco diferencia da filosofia de expansão de royalties do mundo corporativo, com “a venda” ou “patrocínio” de franchising’s. Na grande maioria é resultado de um estudo estratégico de expansionismo de mercado, que nesse caso o produto é a fé.

Evangelizar não é plantar igrejas, mas sim apelar para que as pessoas desenvolvam uma consciência moldada pelos valores do Cristo do Evangelho, para que se tornem seres humanos melhores e traduzam isso na prática na vida de outros. A eternidade precisa ser equacionada no presente, e não uma possibilidade futura.


Concluindo

O Ide portanto começa com uma resignificação pessoal, que me faça perceber o contexto onde vivo promovendo ações que contribuam para “o bem de outros”. Quando isso acontece, a pregação do Cristo do Evangelho fica caracterizada mesmo sem o uso da palavra. Uma vez acontecido isso a priori, pode-se pensar em novos rumos para a divulgação da mensagem além das fronteiras imediatas, “promovendo” boas notícias, e não simplesmente a propagação de uma mensagem de transição religiosa.