Foi então que surgiram os cristãos...



Depois de alguns dias de solidão e duras provocações do tentador, a notícia rapidamente chega até seus ouvidos.

Joãozinho seu primo como carinhosamente era chamado na infância e com o qual havia aprontado muitas traquinagens, agora estava preso por conta de anunciar o reino do qual Ele era o protagonista e personagem essencial.

Nazaré havia perdido seu brilho por conta dos agravos familiares sofridos. Uma ótima opção seria tomar uma brisa gostosa e caminhar pelas areias de Cafarnauam nas redondezas de Zebulon e Naftali, e continuar o que Joãozinho injustamente fora impedido de fazer pelas elites religiosas embrutecidas.

Os sábios ditos do seu antepassado Zazá, parece que agora ganhavam mais nitidez em todos os revezes acontecidos. Galiléia estava prestes a entrar para os anais da história e despontar para as nações.

Nela começaria um processo de iluminação para aqueles que encontravam-se em obscuridade existencial.

Impossível conter o ímpeto que jorrava do seu interior e não anunciar que o Pai havia se reconciliado com todos não lhes creditando quaisquer faltas que haviam ou haveriam de cometer.

O trabalho era imenso, precisava de amigos despretensiosos que vestissem a camisa para juntos anunciarem liberdade, saúde e paz a todo serzinho de boa vontade neste planeta.

Como era bom vê-lo sentir a vida e descalço na areia poder interagir com uma das mais belas pinturas do Pai, a mãe natureza!

Inesperadamente enquanto caminhava pela orla, suas aspirações começam a ganhar contorno e nomes definidos. Pedro e André não resistem a proposta de uma nova dimensão em suas vidas, e abandonam sem titubear a profissão que até então lhes tinha proporcionado sustento, para agora viverem do “peixe nosso de cada dia” tendo de encarar juntamente uma “rede de intrigas”.

Ele iria necessitar de mais gente desapegada dos seus próprios empreendimentos. Agora seria a vez de Tiago e João filhos do Seu Zé Bedeu o que fora presenteado por Deus, escutarem o convite de honra: “Venham comigo, e eu os farei pescadores de homens”.

Deixando pela metade o conserto das ferramentas de trabalho e despedindo-se do pai, partiram para a mais auspiciosa aventura de suas vidas.

Transitava Ele com seus amigos por toda Galiléia promovendo boas novas nos corações sensíveis ao seu discurso. Galiléia havia se tornado a capital das pessoas felizes. Para lá concorriam todos os dias gente carente da Síria, Decápolis, Jerusalém, Judéia, e muitos outros além do Jordão, que após o encontro tornavam-se os mais bem-aventurados dos seres viventes.

O projeto que havia sido iniciado por Joãozinho e que agora pagava um alto preço pela missão visionária, estava prosseguindo a todo vapor. 

Seu tempo nessa dimensão havia chegado ao prazo estabelecido. Foi para o colo do Pai. Novos amigos colaboradores chegaram para tocar o projeto em frente, mas como em todo processo onde indivíduos pensantes se embrenham, desvios de conduta começaram a surgir com o passar dos anos. 

Orgulho, exclusivismo e arrogância, eclodiram do interior de seus parceiros de missão que se sentiam diferenciados dos demais reles mortais, por terem sido escolhidos para fazerem parte de um circulo seleto de amizade.

Isso não foi nada bom. Desviaram-se da proposta. Ao invés de anunciarem que o Pai na pessoa de seu amigo Jesus o Cristo de Deus havia resolvido de uma vez por todas o problema da dívida existente com a humanidade, passaram a fazer pressão e terrorismo psicológico contra aqueles que não aderissem a sua mensagem.

Foi então que surgiram os cristãos... Surgiram com a pretensa áurea de “clube dos iluminados”. Dividiram-se em inúmeras facções lutando entre si e com outras expressões de espiritualidade, para uma disputa ensandecida e neurótica em busca de adeptos.

A mensagem que era de reconciliação foi pervertida e, desonestamente virou persuasão.

O que se propõe a partir de então é que, aqueles que não se adequam a mensagem do cristianismo, são passíveis das chamas alucinantes do inferno na companhia do mais indesejável e terrível vilão que alguém jamais gostaria de conviver: O diabo!

Esse é o mesmo diabo que se transforma em cristão todas as vezes que uma criaturinha bendita de Deus é tida como ser de segunda classe por não pertencer ao “clube dos escolhidos”, e todas as vezes que o apartheid religioso fala mais alto que a misericórdia e Graça do bom Pai manifestada no primo do Joãozinho lá nas bandas da Galiléia.