O protestante bandoleiro

LOKAVENTURAS PENTECA OS TAIS
 

Vindos de São Caetano no ABC paulista, e fundadores da primeira igreja evangélica da cidade, eles já haviam passado pela transição de “batistas tradicionais” para “batistas renovados” com as prerrogativas pentecostais agregadas em seu currículo.

Tocar e cantar os hinos do cantor cristão no seu inseparável bandolim, era uma das atividades prediletas de Lino e também de toda a família.

Não raras vezes, lá estava ele na varanda da casa de seu cunhado o pastor Zeferino casado com sua irmã Zélia, solando e cantando “Acordai”, “Santo, Santo, Santo”, “Plena paz”, entre outros, hora só, hora acompanhado por uma de suas irmãs no velho órgão da família.

Pude presenciar essa cena várias vezes enquanto brincava de “taco” com a molecada na rua. Na varanda eles tocavam, cantavam, conversavam e pregavam.

Cidade pequena sempre é cenário farto para histórias inusitadas, e aquela varanda era palco das cenas mais pitorescas que se possa imaginar. Dali eles “espalhavam” (narrando a Bíblia ou algum livro escrito por autor cristão) o Evangelho pelos arredores do bairro através de um “mega-fone”.

O padre da paróquia que era praticamente vizinho da varanda, já estava indignado com aquela situação patrocinada pelos protestantes “bandoleiros”.

Foi dali (da varanda) que chegou aos seus ouvidos a notícia:

 – Lino, o padre está doente queimando de febre, muito mal mesmo, desfalecendo!

Encorajado pelo “batismo pentecostal”, agora ele se sentia apto e pleno de intrepidez para romper a barreira relacional que havia se erguido entre eles e o pároco.

– Eu vou lá! Deixa comigo! Vou ministrar a unção em Nome do Senhor e vou orar pela sua cura!

Sem receio algum poucos minutos depois, lá estava ele frente ao pároco que jazia em dores e febre.

– Padre, posso orar pelo senhor?!

Estranhamente (já que os ares não eram dos melhores devido ao choque de concepções de fé) o padre acena a cabeça ligeiramente sem pronunciar palavra alguma dando a entender com sua postura que sim, o protestante bandoleiro poderia orar.

– Vou ungir o senhor com óleo, onde está?!

O pároco sem forças e lucidez suficiente para dialogar não pode oferecer uma resposta satisfatória, e Lino por sua vez, fazia questão que a oração fosse realizada com a ministração do óleo.

Depois de algumas tentativas e nada de encontrar um pouco de azeite que fosse, ele olha pela janela da casa paroquial e avista no pátio da comunidade um velho caminhão de um conhecido do padre, que ele gentilmente havia permitido que ficasse ali por uns tempos até que o dono conseguisse arrumar o motor.

Na parte frontal do veículo em baixo do motor, uma grande bacia onde estava o óleo que havia sido escoado e esgotado do velho caminhão.

Como não havia encontrado o azeite para a unção, Lino que era um tanto quanto... vamos dizer, “incrementado”, não titubeou nem pensou duas vezes: “Vou usar o óleo do motor para fazer a unção, e Deus vai abençoar e o padre será curado em Nome de Jesus!”,  pensou ele consigo mesmo cheio de fé e sem abrir mão da unção com óleo.

Foi até o pátio da paróquia, colheu um pouco do óleo que já estava usado e terrivelmente sujo por conta da exposição ao tempo e dos vários quilômetros de rodagem, entrou novamente onde estava o padre e erguendo ao alto o óleo sob os olhares de perplexidade do mesmo, fez uma oração pedindo a Deus para consagrar e santificar o elemento. Molhando generosamente as pontas dos dedos, ungiu a testa do enfermo deixando que o óleo banhasse toda face do pároco que havia se agarrado aquela situação como a tábua da sua salvação.

Fez aquela típica oração pentecostal por cura repleta de decibéis acima da média entrecortada pela glossolália do “batismo da renovação espiritual” e disse:

– O senhor vai ficar bem padre, Deus vai abençoar!

Ficou ali ainda por algum tempo acompanhando o doente, depois resolveu ir embora já percebendo sinais visíveis e acentuados de melhora.

No outro dia logo pela manhã sentado na varanda, uma visita inesperada: O padre que agora já estava restabelecido da saúde e todo gratidão para com o protestante bandoleiro que o havia curado de forma nem um pouco convencional!