O diabo de estimação



“E, para que me não exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de me não exaltar. Acerca do qual, três vezes orei ao Senhor, para que se desviasse de mim” 2ª Coríntios cap. 12 vs. 7 e 8

Que o cramunhão, capiroto, rabudo, chifrudo e coisa ruim já ganhou destaque de honra em muitas comunidades evangélicas e até mesmo católicas é fato incontestável.

Basta fazermos uma breve pesquisa das programações de exorcismo e libertação nestas ambiências, para comprovarmos que o Deus Todo Poderoso tem perdido o lugar central da pregação em muitas das reuniões.

Eu mesmo ainda na minha puberdade espiritual me aventurei a ser um tipo de ghostbuster, só que do demo. Onde tinha um encapetado para ser descarregado do chefe dos quinto, lá estava eu com todo aparato para realizar com ares de aventura o santo descarrego em nome de Jesus.

Era uma santa farra espiritual que me motivava a uma consagração diária para não cair nas unhas do satã enquanto despachava o dito cujo para o caldeirão de volta.

Meu devocional era desenvolvido de maneira neurótica de modo que o tempo envolvido consistia em batalha espiritual para repreender, amarrar e botar fogo no cão alternando com adoração e intercessão. Coisas da meninice da fé!

O tempo passa fazendo com que o amadurecimento e sensatez ganhem consistência nas nossas práticas espirituais. Isso é bom! Precisamos alcançar consciência adulta na espiritualidade para não ficarmos reféns dos pobres rudimentos que infantilizam e escravizam nossa fé nos fazendo tolos em nome de uma falsa segurança adquirida através do auto-engano gerado pelo mérito das obras.

O grande problema é quando esse amadurecimento, consciência e sensatez nos fazem trafegar em um outro extremo do caminho do crescimento: A indiferença!

Indiferença que nos imbeciliza e infantiliza da mesma forma, pois afinal de contas crescemos e não precisamos mais perder tempo com práticas tão simplórias. Nos tornamos em maduros imbecilizados pela presunção e arrogância.

Sabedores dessa instabilidade inerente ao bicho homem, é que alguns líderes religiosos se aproveitam da vulnerabilidade da nossa volição para fazer a pregação do “diabo de estimação”, patrocinando no inconsciente coletivo do povo a fidelidade como fruto do terrorismo psicológico. E assim, ganha-se um diabo de estimação como meio de aperfeiçoar a fé.

O diabo de estimação vira uma espécie de instrumento de viabilização a serviço do Reino de Deus.

Aterrorizadas pelo diabo de estimação é que as pessoas dizimam ou ofertam com medo do demônio devorador.

Aterrorizadas pelo diabo de estimação é que as pessoas se consagram com medo de retaliação.

Aterrorizadas pelo diabo de estimação é que as pessoas se santificam com medo de irem para o fogo do inferno.

Aterrorizadas pelo diabo de estimação é que as pessoas evangelizam ou fazem missões querendo livrar outros do caldeirão.

Aterrorizadas pelo diabo de estimação é que as pessoas perdoam com medo de não serem perdoadas e serem atormentadas.

E assim ganha-se um diabo de estimação que acaba virando bicho papão, fazendo com que as motivações sofram inversão de valores.