Numa fria – Workshop do além

lOKAVENTURAS PENTECA OS TAIS


Wartão sempre foi fascinado por exorcismo. Apesar de congregar conosco em uma simples comunidade sem expressividade local, adorava freqüentar assiduamente a “sexta-feira forte”, reunião de libertação de uma grande denominação, onde depois sempre aparecia ansioso para nos contar os tristemunhos de demônio que levantara os bancos da Igreja batendo no pastor, entre outros do gênero.

Gostava de fazer visitas de oração, mas sempre que aparecia algum caso mais complicado tipo “endemoninhado gadareno ou varzeano mesmo”, ia logo tratando de chamar Dona Zila, ou alguém com um pouco mais de experiência “no ramo” ficando sempre na retaguarda em intercessão, pois seu receio era de que ainda não estava preparado para assumir tamanho desafio. Mal sabia ele que logo essa história iria mudar.

Num certo domingo depois de haver pregado em nossa comunidade já descendo da plataforma, irmã Iraci me convida para uma missão do além:

– Irmão Franklin, minha filha trabalha como advogada em São Paulo, e pediu pra mim orar por uma família cliente dela, que está totalmente endemoninhada do mais novo ao mais velho. Você pode ir junto amanhã? Pode chamar algum outro irmão que você queira também.

 – Posso sim irmã Iraci, vamos lá em nome de Jesus! (com muita euforia, pois já sabia quem iria ser meu convidado de honra: WARTÃO).

Antes que fosse embora, gritei pra ele que já estava na porta pronto pra sair:

– Wartão! Temos um convite/missão para ir amanhã em São Paulo. Orar junto com a irmã Iraci por uma família com problemas de possessão, você topa?

– Topo sim, e qual vai ser o jejum que iremos fazer?

– Você eu não sei, mas eu vou encher a “pança” pra ter energia pra encarar essa parada!

Meio desconfiado (Wartão) dessa técnica de oração, lá fomos nós no dia seguinte por volta das dez horas da manhã pra sampa com a advogada filha da irmã, que veio nos buscar com seu “ghostmóvel”.

No caminho fomos nos inteirando da situação contada em detalhes pela advogada, que dizia ser uma legião de “caboclos” os espíritos responsáveis por atormentar aquela família de clientes e amigos.

Percebia um certo desconforto no Wartão, toda vez que algum detalhe assombroso era mencionado. De pardo ele ia ficando “degradée”, até voltar o normal novamente.

 – Pronto! Chegamos em São Paulo! Vocês querem passar em um restaurante antes pra comer?!

Olhei pro Wartão flexionando minhas duas sombrancelhas pra cima e pra baixo como que dizendo: ÔOOBA!

Ele com ar de reprovação balançou ligeiramente a cabeça dizendo que não, pois não queria quebrar o jejum que estava fazendo com receio de retaliação.

Não teve jeito. A maioria esmagadora venceu, três contra um.

E fomos nós pro abraço, digo, para os pratos. Enchemos o bucho de tudo que tínhamos direito ficando empanturrados, inclusive o Wartão que pra não fazer desfeita entrou na carne também.

Hora de ir para a sessão do descarrego. Chegamos mais rápido do que o Wartão desejava.

Rapidamente fomos apresentados a uma senhora de uns sessenta e cinco anos e mais três filhos dela com idade entre vinte e cinco e trinta e cinco anos, algumas conversas de introdução, então logo começamos a orar direcionados pela irmã Iraci.

KAAARAKA! Mal iniciamos e a “caboclada” começou a pipocar de um lado para o outro alternando a fila de possessão, hora manifestando na mãe e hora manifestando nos três filhos.

Olhei pro Wartão que já estava suando frio (pensei comigo mesmo: hoje ele vai entrar numa fria ou vai criar coragem de vez) e disse:

 – Vem cá! Hoje nós iremos fazer um “Workshop” de libertação, e você vai ser nosso mentor.

– Mas eu quebrei o jejum, e tô com a pança cheia!  (disse ele tremulando os lábios).

– Não tem problema, a coisa é em Nome de Jesus e não na base da dieta do descarrego.

Ah! Que doidera! Bravamente Wartão começou a cantar uns “corinhos de fogo” disparando pelo meio uns “siricantalánapraia” invocando o Nome de Jesus, e então tomou coragem e partiu pra cima da “caboclada”.

– Caboclo Pena Verde, Caboclo Pena Dourada, Caboclo Pena Vermelha, Caboclo Pena Azul! (era uma “aquarela do além" de dar desgosto), eu ordeno a todos vocês, peguem a vossa bagagem e saiam desses corpos que não lhe pertencem mais em Noooooome de Jesus! (Esbravejava ele com os olhos arregalados e todo desalinhado das vestes, olhando pra nós num misto de medo e sentimento de vitória).

Custou... Demorou... Deu trabalho substituir aquela “aquarela do além” pelo branco da paz e da libertação, mas ele conseguiu, praticamente sozinho (digo, sem nós mas com Jesus o que já basta) fez todo o trabalho com bravura ganhando auto-confiança em Nome do Senhor, e agora sem receio encarava todos os convites e desafios de orar pelos opressos do demônio.


P.S. – Meses depois irmã Iraci nos trouxe um recado de sua filha dizendo que toda aquela família estava grata, pois agora estavam vivendo um momento novo, onde tudo era diferente sentindo a paz de Deus em seus corações! (Graças a Jesus e ao Wartão).