Pedro vendeu a benção e Simão comprou!



 



Quando Estêvão morreu apedrejado em Jerusalém, deflagrou-se uma salutar dispersão de discípulos. Isto porque contra a ordem de Jesus, depois de receberem o dom do Espírito Santo, no Pentecoste, ao invés de irem por toda Judéia, Samaria e até os confins da Terra, preferiram ficar em Jerusalém.

A ordem de Jesus era para que ficassem em Jerusalém apenas “até que fossem revestidos de poder”. O poder veio. Mas eles ficaram.

Então o apedrejamento de Estevão os obrigou, em razão da perseguição que se seguiu, a se dispersarem por toda a Judéia e Samaria.

De fato, o texto grego diz que eles foram “semeados” por toda Judéia e Samaria. Então, pela primeira vez, começaram a anunciar a Boa Nova onde quer que fossem ou estivessem; e fazendo isto de modo hebreu, desinstalado, indo, e pregando; assim como batizando os que cressem; ensinando-os, também, o Evangelho; e que era simplificadamente ensinado como três coisas: as historias sobre Jesus e Seus ensinos (narrativas orais da vida de Jesus); a afirmação de que a desobediência e intento invejoso e homicida das autoridades judaicas, acabou por cumprir as profecias acerca do messias; e, também, que ao morrer e ressuscitar, Jesus vencera a morte, oferecendo vida eterna a quem cresse — sendo que o grande dogma dessa fé era o amor a Deus expresso ao próximo. E isto tudo com oração pelos doentes, com imposição das mãos, e a libertação dos oprimidos pelos espíritos que os obsessadavam, os quais ficavam livres em nome de Jesus (Atos 8).

O diácono Felipe, companheiro de Estevão, e que é aquele que também pregou ao Ministro das Finanças da Etiópia, e que o batizou — foi o primeiro a chegar à Samaria e a pregar; fazendo também grandes milagres; o que trouxe grande alegria àquele lugar.

Ora, ali estava certo homem chamado Simão, o qual era respeitado como grande figura, considerado o Grande Poder, e que na História é mencionado por Irineu como realmente tendo tido um expressivo número de discípulos, garantindo que Jesus era a Palavra de Deus, mas que ele, Simão, era o Espírito, o poder do divino, na forma masculina, já que Helena, uma ex-prostituta que era sua mulher e com ele andava, era afirmada por ele como sendo a dimensão do divino no feminino; visto que ela fora uma prostituta, e que agora era uma deusa, mostrando assim que o Espírito tem o poder de incluir a todos. Simão, porém, seria a manifestação mais divina dessa nova “emanação” de Deus.

O livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, o historiador de Paulo e grande amigo dele, nos diz que Simão ouviu, viu, creu, foi batizado, e passou a seguir a Pedro, João e Felipe bem de perto — isto porque Pedro e João haviam descido até a Samaria para ver o que estava acontecendo —; ficando extasiado com o fato de ver não somente os milagres, mas ante a constatação de que os apóstolos impunham as mãos e as pessoas recebiam o dom do Espírito Santo, que se manifestava, para testemunho aos que viam, mediante sinais sensoriais, como o falar em outras línguas.

Foi então que Simão, vendo a sinceridade de tudo, foi tomado pelos seus vícios de alma, pela sua Síndrome de Onipotência e de Lúcifer; pois, percebendo que aquilo era lindo, viu também que, no caso de um homem como ele, deveria se transformar num grande negócio.

Assim, a ganância de Simão venceu sua breve alegria!

Ele, que já havia sido considerado muito grande, e que a si mesmo chamava de “O Grande Poder”, não tendo nada mais importante dentro de si mesmo do que avidez por poder, status e dinheiro —, ofereceu dinheiro a Pedro, para que ele, Simão, também recebesse aquele poder de conceder o Espírito pela imposição das mãos.

Simão ficara impressionado pelo fato de que ele era um mágico do status de um David Cooperfield, e sabia o que era verdadeiro e o que era falso no mundo sobrenatural e da ilusão; posto que ele era um grande mestre da ilusão.

Agora, entretanto, ele via algo sincero e verdadeiro realmente acontecendo. Todavia, em razão de sua Síndrome de Onipotência e de Lúcifer, além de ter estímulos orgásticos ao fazer o povo delirar — Simão, que sabia que tudo quanto ele fazia era fake, viu no poder do Espírito Santo um “novo mover”, uma nova chance de renovar o repertório; e algo que não era espetáculo “de um indivíduo” apenas, mas, muito além disso, era um poder que se fazia sentir nos outros — o que certamente daria a ele, Simão, muito mais poder ainda; quem sabe até concedendo-lhe a chance de ter sua própria “igreja”, conforme Irineu mais tarde diria.

“Concede-me também a mim este poder” — pede ele a Pedro, oferecendo-lhe dinheiro como pagamento pela compra da benção.

Pedro diz que o dinheiro dele fosse com ele para a perdição; pois, Deus e Seu dom não estavam à venda. Portanto, afirmava que o mágico não teria parte naquele ministério; pois seu coração era cheio de maldade e que o intento de seu coração era perverso.

Além disso, Pedro enxergou angustia de morte na alma de Simão, ao dizer-lhe que sua alma estava em fel de amargura e laço de iniqüidade; e isto não sem dizer ao ser ganancioso que se arrependesse, na esperança de ser curado de seu vício essencial, de sua Síndrome de Onipotência e de Lúcifer.

Simão apavorou-se e pediu que eles, Pedro e João, orassem por ele, para que nenhum mal viesse sobre ele.

É de Simão que vem a designação humana desse pecado de tentar comprar as bênçãos de Deus. Trata-se do Simonismo.

Entretanto, pergunto:

O que teria acontecido se Pedro tivesse ficado também tentado, não pelo dinheiro, mas pelo poder que ganhara sobre Simão, o Grande Poder — bem conhecido na Samaria e fora de Israel — e tivesse “vendido” a encenação da concessão do Espírito Santo?

A resposta é simples:

Um “Cristianismo” de versão IURDIANA teria nascido há quase dois mil anos!

Um livro apócrifo chamado de “Os Atos de Pedro” continua a narrativa que o livro dos “Atos dos Apóstolos” encerra. E acrescenta que Simão teria prosseguido em seu caminho, vindo, posteriormente, a desafiar a Pedro, tendo levitado diante do apóstolo e de uma grande multidão. Mas Pedro teria orado, e Simão teria despencado ao chão; tendo sido depois disso apedrejado pela multidão.

É obvio que tudo isto é “apócrifo”; servindo para mim, aqui, apenas como uma ilação acerca do que poderia ter acontecido a Simão. Isto por que, como disse, o livro de “Atos” não diz nada. Deixando que Simão entre para a história como uma Dúvida.

Sim, os “Simões” são Dúvida!

Eles podem até ser batizados. Eles amam o sobrenatural. Mas eles são viciados na ilusão e na manipulação. Têm Síndrome de Grande Poder. Assim, não se sabe o que lhes acontecerá no coração quando são confrontados pela verdade da sinceridade pura do Evangelho.

Quando Pedro disse “arrepende-te”, obviamente ele estava afirmando uma difícil, porém, real possibilidade. Digo isto porque a conversão de gente acostumada à manipulação do ilusionismo ou do sobrenatural é algo muito complicado. A maioria está viciada na heroína do poder. Entretanto, pode ser que se arrependam.

Pedro, entretanto, nos diz como a alma de Simão estava. O que havia nele era fel de amargura e laço de iniqüidade.

Fel de amargura equivale à mágoa e complexo de inferioridade. Daí ele querer poder; e mais que isto: se chamava de O Grande Poder.

Já o laço de iniqüidade é o “estado mental reprovável”; e que é um processo vicioso de pensar, ver e sentir.

Simão é um prato cheio para a Psicanálise também!

O que nós temos hoje em boa parte do meio chamado religiosamente de “cristão” é a prevalência do pior: Pedro vendeu a benção e Simão comprou!

E mais: no momento em que Pedro “vendeu”, vendeu-se para Simão. Assim, agora, Simão é o chefe de Pedro. Este é o nível da perversão.

Que Deus salve Pedro!

Que Deus salve Simão!

Que Deus livre Pedro de virar Simão!

Que Deus converta o Pedro que se tornou Simão!

Que Deus nos salve do Engano de Simão!